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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Bolhas

Piscou uma ou duas vezes, com dificuldade, pois seus olhos ardiam muito. Seus movimentos eram lentos, e sentia-se, pouco a pouco, sufocar. Concentrou-se. Sabia que podia reverter aquilo. À medida que o oxigênio lhe faltava, seus pensamentos pareciam ficar mais e mais densos, como todo o azul que lhe rodeava. Mexeu-se, bolhas se formaram, pequenos seres coloridos se moveram.  Cada detalhe lhe parecia importante, então decidiu observar:
Duas pedras pequenas e polidas, cobertas de musgo, algumas algas verdes, de uma textura diferente; esponjas, corais, pedras, um amontoado de cores, alguns poucos peixes passando sozinhos e, a uns palmos, um monte deles, num cardume pontilhado de prateado.
Ao longe, sombras; acima, raios de sol, muito, muito distantes; abaixo, apenas areia, ora macia, ora áspera, ora rocha, além daquelas pequenas plantinhas - ou, sabe-se lá, seriam daqueles seres de nomes confusos? Amaldiçoou-se por não saber ao certo.
Olhava e sentia-se parte daquilo; estranhamente, percebeu, já não precisava de ar ou do sol lá de cima, e seus olhos ardidos já não incomodavam. Tentou mexer-se, mas desta vez não conseguiu; suas roupas pesadas o impediam, como seus sapatos, como seus bolsos cheios que lhe fizeram afundar tão rápido. Olhou seus dedos, murchos, e estendeu-os alguns centímetros adiante. Alguns segundos, e quando já nem distinguia a temperatura, rumou decidido, deixou pra trás seu corpo e foi se juntar aos outros peixes.
Respirar, mover-se - agora tudo era bolhas. 

terça-feira, 27 de julho de 2010

Desnecessário

O vento está soprando tão forte
e eu, quente, acomodada
Com olhos pesados de pensar na sorte
Não quero admitir estar cansada
Apenas quero esperar
A chuva cair
O dia surgir
A hora chegar...

domingo, 18 de julho de 2010

Pequenos prazeres

O cheiro forte dos livros guardados e recém abertos
O ruído da folha sendo arranhada pela caneta...
A página sendo virada pelo dedo úmido de saliva
E o gosto da mão suada, pela euforia de sua criação:
As palavras, lado a lado,
em uma composição harmoniosa
que transporta a qualquer situação ou lugar
e proporciona com clareza todos os sentidos... 

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Dois pontos formam uma reta

Era uma vez uma caneta macia
Deslizando por um papel poroso
Guiada pela poetisa-vazia
Que nunca chorava o que pouco sentia
E pouco sorria o que sentia doloroso.

Suas unhas eram redondas
Com pedaços de pele espetada
Suas idéias obtusas lhe vinham em ondas
Sempre que pensava em sua semana parada

Ao deitar em seu travesseiro de flores
Ela sonhava sonhos arborizados por horas longas
A poetisa guiava seus sonhos por sonhos encantadores
Cheios de casas amarelas e pés de maçã
E sonhava longamente até de manhã

Até que um dia a caneta acabou
As folhas rasgaram, as flores murcharam
E ela esqueceu o sonho que sonhou
Seus peitos cresceram, suas idéias mudaram
E ela não pôde evitar...

E num outro dia, enquanto tricotava e sorria
Um neto seu trouxe uma maçã para ela
Ela agradeceu gentilmente,
mordeu um pedaço e observou, descrente
Que sua casa era amarela... 

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Suaves mistérios

Semelhante às rosas, cujas pétalas envolvem e protegem umas às outras, conhecer-te e solucionar teus enigmas é conhecer novos enigmas a desvendar. Ao te ver, quis te conhecer; ao te conhecer, quis teu carinho e quis que quisesses o meu; ao tê-lo, quis entender porque o quero e quando não pude entender, percebi que se eu entendesse serias para mim como uma rosa sem pétalas, e sem os enigmas tão acolhedores para alguém que, como eu, procura nas incógnitas o que simples respostas não oferecem: o prazer do tentar te desvendar.